A gente pode falar dos títulos, dos grandes desfiles, dos sambas que ficaram na memória, das bandeiras espalhadas por Nilópolis. Pode mostrar fotografias, vídeos, contar histórias. Ainda assim, sempre vai faltar alguma coisa.
Porque Beija-Flor é sentimento.
Quem cresceu por aqui sabe.
Existe um azul que parece fazer parte de Nilópolis. Está nas ruas, nas casas, nas conversas, nas famílias. Passa de pai para filho, de avô para neto. E muitas vezes ninguém precisa sentar para ensinar isso. Quando a gente percebe, já está dentro da gente.
É crescer sabendo, por exemplo, que DEZ era normal para um TRINTA.
É olhar para trás e pensar que tudo isso começou de um jeito quase simples demais para o tamanho da história que viria depois.
Um dia, Dona Eulália sugeriu o nome de um pequeno pássaro para aquele que ainda seria um bloco carnavalesco:
Beija-Flor.
Será que ela imaginava?
Será que, naquele momento, alguém poderia imaginar?
Ah, Dona Eulália...
O pequeno pássaro que para no ar cresceu. E como cresceu.
Saiu de Nilópolis sem nunca deixar Nilópolis. Ganhou a Avenida, atravessou fronteiras, conquistou gerações e se tornou um dos grandes símbolos do Carnaval e da cultura popular brasileira.
E continua voando.
A história ainda está sendo escrita.
Talvez seja por isso que a gente diga tantas vezes que ser Beija-Flor é um estado de espírito.
Não são apenas os títulos. Não são os troféus. Não é uma bandeira pendurada na parede.
É outra coisa.
Quem já esteve no meio desse povo pouco antes de um desfile entende melhor.
Existe um momento em que tudo parece mudar.
A ansiedade, o barulho, os abraços, alguém ajeitando uma fantasia, outro procurando alguma coisa que sumiu, gente chorando antes mesmo de entrar, a bateria aquecendo, o samba começando a crescer...
Até que chega a hora.
E a Beija-Flor entra na Marquês de Sapucaí.
Durante aqueles minutos, Nilópolis deixa de ser somente uma cidade da Baixada Fluminense.
Nilópolis vira canto.
Vira dança.
Vira tambor.
Vira suor.
Vira lágrima.
Vira orgulho.
Na Avenida estão alguns milhares. Nas arquibancadas, outros tantos. Em casa, milhões acompanham.
E, de algum jeito que talvez ninguém consiga explicar direito, todo mundo parece estar no mesmo lugar.
Um só coração azul e branco.
Mas para entender a Beija-Flor de hoje é preciso olhar para trás.
Muito antes de nós, houve gente trabalhando para que essa história chegasse até aqui.
Homens e mulheres que sonharam quando muita coisa ainda era apenas sonho. Pessoas que trabalharam, discutiram, acertaram, erraram, insistiram e abriram caminhos.
Por isso, falar de Beija-Flor é lembrar de Negão da Cuíca, Edson Vieira, Cabana, Wilson Bombeiro, Osório Lima, Mario Silva, Helles Ferreira, J. Veloso e de tantos outros nomes que ajudaram a levantar essa Escola.
Alguns ficaram conhecidos.
Outros talvez sejam lembrados principalmente por quem teve o privilégio de conviver com eles.
E não tem problema.
Uma Escola de Samba não é feita somente daqueles cujos nomes aparecem nos jornais ou são anunciados no microfone.
É feita também por quem chegou cedo, saiu tarde, carregou instrumento, costurou fantasia, empurrou alegoria, organizou ala, escreveu samba, abriu portão, resolveu problema e fez o que precisava ser feito quando quase ninguém estava olhando.
Cada um deixou alguma coisa.
Uma ideia.
Uma batida.
Um conselho.
Uma história.
Um pedaço da Beija-Flor.
Em determinado momento dessa caminhada, porém, um nome passa a ocupar um espaço incontornável na história da Escola:
Anísio Abraão David.
Ou, para tanta gente da Beija-Flor:
Alô, Papai...
Anísio atravessou décadas como uma das figuras centrais dessa construção. Sua trajetória acompanha uma fase decisiva da transformação da Beija-Flor, da consolidação de sua estrutura e da chegada da Escola a um lugar de enorme protagonismo no Carnaval.
Hoje, como Presidente de Honra, ocupa um posto que vai muito além de uma denominação formal.
Para muita gente, falar de Anísio é falar de uma época inteira.
É lembrar de uma Beija-Flor que cresceu sem deixar de carregar consigo uma ideia que sempre foi muito forte por aqui: a de família.
A grande família azul e branca.
Mas nem mesmo uma trajetória dessa dimensão se constrói sozinha.
A Beija-Flor que chegou até nós foi feita pelos fundadores, dirigentes, carnavalescos, compositores, mestres, trabalhadores, componentes e por uma comunidade inteira que, geração após geração, se recusou a deixar que suas raízes fossem esquecidas.
E algumas histórias parecem ter sido inventadas para o Carnaval.
Como a daquele menino que saiu da vala e se transformou em uma das vozes mais conhecidas da história da Beija-Flor.
Luiz Antônio.
Engraçado escrever assim, porque quase ninguém o chama desse jeito.
Talvez seja mais fácil simplesmente ouvir:
“OLHA A BEIJA-FLOR AÍ, GENTE!”
Pronto.
Não precisa explicar mais nada.
Neguinho da Beija-Flor.
Há quanto tempo esse grito anuncia que ela está chegando?
Quantas crianças aprenderam esse grito antes mesmo de entender direito o que era uma Escola de Samba?
Quantas famílias ouviram essa voz pela televisão?
Quantas arquibancadas responderam?
A voz de Neguinho deixou de pertencer somente a ele faz tempo.
Virou memória afetiva.
Virou parte da Beija-Flor.
Existem vozes que o tempo muda.
A dele, o tempo guardou.
E já que estamos falando de Luiz, existe outro Luiz sem o qual seria impossível contar essa história.
Luiz Fernando Ribeiro do Carmo.
Não reconheceu?
Então vamos facilitar.
LAÍLA.
Aí não precisa dizer mais nada.
Laíla virou nome próprio dentro do Carnaval.
Talvez sejam necessárias muitas páginas para explicar tudo o que ele representou para a Beija-Flor. Sua maneira de pensar desfile, conjunto, disciplina, canto, comunidade e competição ajudou a marcar profundamente uma época.
Ele enxergava coisas que muita gente só percebia depois.
Sabia que uma Escola não ganha força apenas pela beleza de uma alegoria ou de uma fantasia. Entendia que havia algo maior no conjunto, na organização e, principalmente, na maneira como uma comunidade entrava na Avenida.
A Beija-Flor não podia simplesmente passar.
Tinha que ocupar aquele espaço.
Tinha que ser sentida.
Mas seria injusto contar essa história como se ela pertencesse a meia dúzia de grandes personagens.
A Beija-Flor nunca foi construída por uma pessoa só.
Ela é das baianas.
Dos ritmistas.
Dos compositores.
Dos passistas.
Dos mestres.
Dos diretores.
Do pessoal do barracão.
Das alas.
Da velha guarda.
Das crianças.
Da pessoa que aparece na televisão e daquela que trabalhou durante meses e talvez nunca apareça em fotografia alguma.
É de quem está chegando agora e de quem já não está mais aqui.
No fim das contas, talvez seja exatamente isso que chamamos de comunidade.
Não uma palavra bonita para colocar em discurso.
Comunidade de verdade.
Gente.
Pertencimento.
Responsabilidade.
Respeito por quem veio antes e compromisso com quem ainda vai chegar.
E é por isso que nossas crianças importam tanto.
Porque um dia serão elas que estarão cantando os sambas que hoje cantamos.
Serão elas segurando nossas bandeiras.
Tocando nossos instrumentos.
Entrando pelas mesmas portas.
Ocupando lugares que hoje são nossos.
E contando histórias das quais nós, talvez, já tenhamos virado personagens.
Acreditar nessas crianças significa também acreditar na educação como instrumento de transformação.
Significa trabalhar para que o lugar onde alguém nasceu nunca determine até onde essa pessoa poderá chegar.
Que um menino ou uma menina de Nilópolis possa olhar para o mundo e entender que também tem direito de sonhar grande.
Porque uma Escola que nasceu de seu povo não pode esquecer o seu povo.
Nunca.
Ser Beija-Flor também é uma porção de pequenas coisas.
É estar longe de Nilópolis e sentir que levou Nilópolis junto.
É ouvir uma bateria de longe e, quase sem querer, tentar identificar a cadência da Soberana.
É ver azul e branco em qualquer lugar e olhar duas vezes.
É ouvir um samba antigo e lembrar de alguém.
É passar meses dizendo que ainda falta muito para o Carnaval e, de repente, perceber que fevereiro chegou.
É esperar a Beija-Flor como quem espera encontrar uma parte de si.
A Avenida acaba na Praça da Apoteose.
A Beija-Flor, não.
Ela volta para Nilópolis.
Volta para a quadra.
Volta para casa.
Volta nas conversas do dia seguinte.
Volta no componente que ainda está rouco.
No ritmista com o braço cansado.
Na criança que viu aquele desfile e decidiu que, quando crescer, também quer estar ali.
É assim que uma Escola atravessa o tempo.
Recebemos uma história que começou muito antes de nós.
Não somos donos dela.
Somos parte dela.
E durante o tempo em que estivermos aqui, temos a responsabilidade de cuidar dessa história para entregá-la à próxima geração.
Hoje, Almir Reis, na Presidência, carrega consigo parte dessa responsabilidade no presente: conduzir uma instituição gigantesca sem perder de vista o lugar de onde ela veio.
Ao mesmo tempo, novas gerações se aproximam desse legado. Entre elas está Gabriel David, filho de Anísio, pertencente a uma geração que cresceu cercada por essa história e que também será cobrada pelo tempo a respeitar aquilo que recebeu e ajudar a construir aquilo que ainda virá.
Porque nomes mudam.
Cargos mudam.
Gerações passam.
A Beija-Flor fica.
Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas de tudo isso.
Quando olhamos para trás, percebemos que não chegamos aqui sozinhos.
Se hoje conseguimos enxergar tão longe, não é porque somos maiores do que aqueles que vieram antes.
Muito pelo contrário.
Enxergamos longe porque estamos de pé sobre os ombros de gigantes.
Gente que sonhou.
Gente que brigou pela Escola.
Gente que acreditou quando ainda havia pouco.
Gente que transformou um pequeno pássaro no símbolo de um povo inteiro.
E enquanto existir alguém vestindo azul e branco com orgulho, respeitando essa história e entendendo o significado dessa comunidade, eles continuarão por aqui.
Dona Eulália estará por aqui.
Os antigos estarão.
Laíla estará.
A voz de Neguinho continuará ecoando.
Anísio continuará ligado a uma era decisiva dessa história.
Almir terá diante de si a responsabilidade do presente.
Gabriel, assim como tantos outros que estão chegando, encontrará a responsabilidade do futuro.
E haverá uma criança em algum canto de Nilópolis olhando tudo isso pela primeira vez.
Talvez seja justamente ela que escreverá uma página que nenhum de nós ainda conhece.
O pequeno pássaro continuará fazendo aquilo que faz desde o começo.
Voando.
Às vezes contra o vento.
Às vezes depois de uma vitória.
Às vezes depois de uma derrota.
Mas sempre voando.
De Nilópolis para a Sapucaí.
Da Sapucaí para o mundo.
De uma geração para outra.
BEIJA-FLOR É MEMÓRIA.
É ANCESTRALIDADE.
É COMUNIDADE.
É EDUCAÇÃO.
É RESISTÊNCIA.
É PAIXÃO.
É NILÓPOLIS.
E talvez, depois de tudo isso, ainda seja impossível explicar completamente.
Tudo bem.
Quem é, sabe.
Quem vive, sente.
SER BEIJA-FLOR É UM ESTADO DE ESPÍRITO.